Vozes Num Divertimento
Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que a liberdade seja a nossa própria substância. (Simone de Beauvoir)
segunda-feira, 25 de maio de 2026
sentir
quarta-feira, 11 de setembro de 2024
Eu sei, mas não devia. de Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
quarta-feira, 13 de março de 2024
Sonhos
sábado, 2 de dezembro de 2023
O desenrolar da vida.
Faz tempo que eu tenho pensado sobre isso.
Sobre o afastamento com você. E tenho feito muita auto crítica. Mas ainda assim, como sempre, minha primeira reação é ficar brava.
Eu sinto muito por ter ficado longe, por ter percebido o que isso virou de nós. O que nossa amizade se transformou.
Como que pode, aquela amizade que era cotidiana, ter virado isso? Como que pode a gente não se falar mais? E o que me chamou mais atenção é que me parece que você não liga.
Honestamente falando, sinto muito a sua falta. E eu já expus isso em diversos momentos. Fui ver nosso histórico de mensagens, sempre eu quem corro atrás de você, te verbalizo a saudade, te pergunto como você está. E as devolutivas não existem. Já tentei conversar sobre essas mudanças contigo e você simplesmente não deu bola.
Sinto sua falta, gostaria de fazer algo a respeito, mas pra algo mudar há que ser feito em via de mão dupla.
Eu vejo suas questões colocando que 'eu mudei'. E eu digo que mudei sim, inclusive pra você. Mas pelo visto essas mudanças não são bem vindas. Que triste pensar sobre isso.
Mas é isso, a vida é feita sobre mudanças, e sim, as pessoas mudam. Mudei minha forma de ser, pensar, agir. E talvez isso não tenha dado conta pra você.
Que pena.
Tem coisa que não muda, tipo o afeto. Eu sigo amando você, amando nossa amizade, sentindo saudade de rir sobre as coisas que ríamos, os rolês que fazíamos.
Espero que esse lugar de carinho permaneça por aí também, ainda que você não fale mais comigo, nem sobre mim.
Se cuide, e fique bem.
sexta-feira, 17 de março de 2023
E esse dia há de vir antes do que você pensa.
Apesar de...
Eu acredito muito nisso.
A vida não é assim um mar de rosas, a gente não consegue ser feliz o dia todo. Toda hora.
Mas eu acredito que a vida é um exercício, e a gente precisa muito se esforçar para ver além do que se vê.
Como assim?
Precisamos nos esforçar pra sermos felizes. Para estarmos bem com a nossa vontade. E não é papo de coach. É muito mais cômodo reclamar e não fazer nada pra mudar. Afinal, as coisas já estão postas.
Acho que depende da gente buscar a felicidade nas pequenas coisas. Não deixar a rotina vencer a gente no cansaço. Tentar ficar feliz com o que a gente já tem no cotidiano.
Eu realmente penso: Você acorda e tem a opção de ficar resmungando OU ficar de boa, levando a energia pra cima, deixando as coisas leves. PRA QUE você vai pesar o rolê?
Não estou me referindo aos problemas graves que todo mundo tem. Falta de grana, problema no trabalho, perrengue no cotidiano... Mas se eu ficar dando corda pra isso, só piora. E o problema vai continuar ali.
Posso ser taxada de gratiluz, good vibes, sei lá. Que seja. Não me importo. Eu vou sim ver o copo meio cheio e tentar ficar com o meu humor o melhor que eu puder.
Por mim, e para mim.
De azedo já basta o resto do mundo.
quarta-feira, 10 de agosto de 2022
domingo, 10 de abril de 2022
Pode chorar, coração. Mas fique inteiro.
Nesse fim de semana minha avó morreu.
Ela tava mal fazia um tempo, um câncer doloroso consumiu sua vontade de permanecer nessa vida. E eu confesso que a entendo.
Viver é doído.
Foram 82 anos de muitas coisas. Muita vida, muita risada, mas também muita dor. Viver tem dessas coisas.
Eu não sei dizer exatamente o que eu senti. Perder a minha avó foi uma experiência que me fez olhar as relações de outro modo. A vó sempre foi muito tranquila, apesar de ser uma italiana brava e cheia de xingos. Mas ela era sorriso frouxo também. Afetiva e afetuosa.
Quando cheguei em seu velório várias foram as pessoas que disseram que eu estou muito parecida fisicamente com ela. Confesso que fiquei feliz e orgulhosa.
Eu não tinha muito convívio com ela, a vida tem dessas coisas. Mas saber que tem dela em mim me fez ficar ficar satisfeita. Especialmente porque eu a admirava. Talvez eu não tenha dito tudo isso enquanto pude... Viver tem dessas coisas.
Mas ela era significativa. Uma senhora que me ensinou muito, talvez até sem saber que ensinou. Demonstrando valentia, sabedoria, e até mesmo uma boa dose de 'Foda-se'. Não ficava esquentando por qualquer coisa, mas brigava e falava o que incomodava.
Depois que meu avô morreu nunca mais quis se casar de novo. Disse que não queria lavar cuecas de outro homem. Acho que foi uma das grandes lições que aprendi com ela. Saia para bailões, ria com as amigas, gostava de viver sua vida quanto podia. Quanta liberdade tinha aquela velhinha. Que coisa linda ter vindo dela.
Viver tem dessas coisas. Ela nunca me cobrou a ausência que eu tive, mas sempre demonstrou grande afeto por mim.
Eu ainda não chorei a sua morte nem a sua perda. Não sei quando vou conseguir fazer isso. Mas só de estar escrevendo sobre ela sei que senti mais do que racionalizei. A vida tem dessas coisas.
Desejo que ela esteja em um lugar bom, que ela possa sair para dançar e dar suas gostosas gargalhadas/. Obrigada vó por todo afeto que você me fez construir nessa vida.
domingo, 17 de outubro de 2021
Três meses
Já faz três meses desde que eu decidi fazer a cirurgia.
Tanta coisa mudou em mim. Tanta coisa mudou por mim... Não falo apenas da estética. Essa também, é claro.
Mas Mudou aqui dentro, sabe como?
Parece que tava precisando dessa mudança pra que reverberasse e explodisse tudo que tava aqui, esperando há tanto tempo pra gritar pro mundo. Não sei explicar ao certo.
Terapia, auto análise e muito amor próprio tem sido o resultado eficaz e bonito de um novo ressurgimento meu.
To feliz e orgulhosa das coisas que tem saído.
Dia desses fiz uma consulta no tarot, que disse que tudo ia ficar bem.
Eu Acredito, de verdade, que agora é o tempo da colheita. E que sou merecedora disso tudo.
É hora de colher os bons frutos que sempre fiz por merecer.
Virão coisas boas, sou grata e acolho o que virá.
A mudança faz parte dessa colheita, estou satisfeita com ela.
Bem no fim, era o que eu queria. Almejava por ela, não sabia que era tanto assim. Achava que seria uma simples cirurgia que retiraria apenas meu apetite e eliminaria alguns quilos.
Ledo engano. Ainda bem.
quinta-feira, 29 de julho de 2021
quarta-feira, 28 de julho de 2021
o que você tem pra oferecer
18/01/2018
Ressignificar
Do umbigo roxo, cheio de marca, cicatrizando.
A alimentação líquida, pastosa.
Aprendendo a sentir sabores, comendo em poucas quantidades, descobrindo novos paladares.
A cirurgia vem pra aprender a fazer tudo de novo (ou seria ensinar?), com mais calma, mais ternura, um olhar diferente pra mim.
Não só isso...
To tendo a oportunidade de olhar com mais afeto pra minha relação de afetos ao meu redor. Ressignificando o cuidado e o amor de mãe. Me permitindo ser cuidada em cada ponto.
Fazendo a comida, cuidando pra que eu não passe mal, permitindo que eu não sinta o cheiro, não passe vontade. Vindo em um lugar de gentileza, ternura, que há tempos eu não sentia esse acalento na alma.
Que felicidade poder viver isso. Que felicidade poder ser preenchida por esse amor que eu tanto quis e nunca encontrei.
Ser cuidada enquanto filha.
Que privilégio.
Hoje a sessão foi sobre isso. E to saindo tão feliz por concluir que tive a oportunidade de olhar para esse lugar de novo. Que só posso sentir gratidão.
Obrigada Universo.